Na era da internet, as tribos de consumidores estão substituindo o mercado de massa. Hoje existem nichos inexplorados e altamente lucrativos. Quem resolveu apostar na tendência já está faturando alto.
Por Elisa CorrêaBarbarah está com 17 anos e calça 42. Andrea tem a pele tão sensível que não consegue se expor ao sol. A advogada Mari, evangélica, quer fugir do clássico rabo de cavalo e saia jeans abaixo dos joelhos. Três mulheres diferentes, mas com um desejo em comum: encontrar produtos que atendam às suas necessidades específicas. Assim como elas, os consumidores do mundo todo deixaram de querer as mesmas coisas e passaram a fazer escolhas baseadas em hábitos e preferências individuais. Em vez de seguir em uma única direção, agora se dispersam em tribos e fragmentam o mercado em inúmeros nichos. Adolescentes com pés grandes, inimigos do sol, evangélicas, crianças vegetarianas, alérgicos, integrantes da 4ª idade: pessoas dispostas a pagar mais para ter exatamente aquilo que precisam. “As empresas estão competindo em preço, mas não veem que existem oportunidades bem debaixo do nariz, anseios não atendidos e estilos de vida contemporâneos que exigem novos produtos e serviços”, diz Carmen Migueles, professora da Fundação Dom Cabral e autora do livro Antropologia do Consumo.
O jornalista e escritor norte-americano Chris Anderson afirma, no livro A Cauda Longa, que “a era do tamanho único está chegando ao fim e em seu lugar está surgindo algo novo, o mercado de variedades”. Basta lembrar que, em 1960, o carro mais procurado nos Estados Unidos, o sedã Impala, da Chevrolet, vendia mais de um milhão, ou 13% de uma indústria que não oferecia mais do que 40 tipos diferentes de automóveis. Hoje, em um mercado dez vezes maior, há mais de 250 modelos de carro disponíveis — se adicionadas as variantes para cada um dos tipos, esse número sobe para mil. Mas menos de dez deles conseguem ultrapassar 400 mil unidades vendidas anualmente, ou 0,5% do mercado.
Ao contrário do que ocorre no exterior, o consumidor brasileiro apresenta nuances de comportamento vitais a serem levadas em consideração no momento de apostar em um nicho. As tribos daqui não têm crenças e valores tão rígidos quanto no exterior. “Lá fora, as pessoas vivem como dizem que vivem. Aqui é mais elástico, o cara fala que é vegetariano, mas de vez em quando come uma carninha”, afirma Lívia Barbosa. Mas, assim como os estrangeiros, os brasileiros nunca serão vistos isoladamente em uma só tribo. Todos podem fazer parte de vários grupos. Tome-se o caso de um aposentado, vegetariano e zen ao mesmo tempo “Só é preciso estar atento na hora de falar com uma tribo para não excluir a outra”, afirma Carmen Migueles, da Dom Cabral.
Mas os consultores alertam que o nicho sempre vai ser um negócio com limites. Essa tendência de consumo não admite vários concorrentes vendendo o mesmo produto ou serviço superespecífico para um público limitado. “Segmentar não é escolher, é abrir mão. Os empresários precisam entender isso para dar certo”, diz Fabio Mariano, sociólogo e professor da ESPM. Jacqueline Mikahil, da agência de viagens Be Happy, por exemplo, deixou de investir em pacotes turísticos tradicionais para concentrar seus esforços nos roteiros de lua de mel — e dobrou o faturamento em apenas três anos. Nas próximas páginas, você vai conhecer melhor a história dela e de mais quatro empresários que estão ganhando muito dinheiro vendendo para tribos.
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